terça-feira, 2 de junho de 2009

DOMINGO DA SS TRINDADE

A doutrina da Santíssima Trindade, elaborada por séculos pela Igreja em seu início, não só nos revela o caráter do Deus cristão, mas o próprio caráter da comunidade que segue e serve o Deus cristão. Ao afirmar que “Eu e o Pai somos”, Jesus declara a Sua unidade com o Pai quanto a vontade, quanto ao realizar, quanto ao amor... porém, no mais fundamental, quanto ao SER.

A unicidade trinitária é indivisível e inquebrantável, onde nem mesmo a encarnação do Verbo foi capaz de dividir ou separar. O Pai e o Filho são um somente no SER, mas não na “personalidade”. São pessoas distintas do mesmo Ser. Guardam características diversas, pois são pessoas diferentes, mas sem perder a comunhão fundamental, a essência do ser, mesmo na diversidade de pessoas. Desta mesma natureza é o Espírito Santo: o mesmo SER, o Ser-Divino, mas outra pessoa diferente do Pai e do Filho.

Três pessoas que vivem da fundamental comunhão do mesmo SER. Preservam as diferenças, mas são um só. Por isso não cremos em três deuses (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) Cremos em um só Deus, em três pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) que convivem na perfeita e inquebrantável comunhão que produz sua unicidade: Deus Tri-Uno!

A muitos já surpreendeu que, tendo Jesus anunciado a vinda do Reino, o que tenha aparecido seja a Igreja. Para estes existe uma espécie de descompasso entre o anúncio de Jesus e o surgimento de uma instituição denominada Igreja. A Igreja (especialmente as denominações eclesiásticas), como qualquer outra instituição que esteja no mundo, sofre as mesmas vicissitudes e mazelas que as demais. Ela não é nem melhor e nem pior que outras instituições, p.ex.: a família.

Porém, quando dizemos Igreja, não pensamos nas diferentes denominações. Em sentido pleno existe somente uma Igreja: a Igreja de Jesus Cristo. Por isso: Creio na Igreja uma. É sua marca fundamental a singularidade, que se expressa na sua unidade. Dizer Igreja Uma é também, dizer: unida. As diferentes denominações, na verdade, com suas divisões doutrinárias, em nada contribuem para esta unidade.

Onde, então, poderíamos encontrar este unidade? Ora, a unidade da Igreja não está em suas doutrinas particulares, mas em Cristo que morreu pela Igreja. Cristo é o centro da unidade da Igreja e a razão de sua singularidade. Assim, ao confessarmos Jesus como Senhor, confessamos que o Pai e o Espírito estão conosco. Da unidade da Santíssima Trindade nasce a unidade da Igreja.

Todos somos um em Cristo. Todos servimos ao mesmo Senhor. Todos fomos igualmente batizados em Nome da Santíssima Trindade. Todos participamos da mesma missão. Todos encontram-se ligados entre si, pois participam do inquebrantável e indivisível Corpo de Cristo. Isso não quer dizer que a pessoa do fiel se confunda com a de Cristo. Os fiéis formam o “Corpo de Cristo”, de quem somente Ele é o cabeça. Assim, como a unicidade do Pai e do Filho não promove confusão de suas pessoas, assim, também, a nossa unicidade com Cristo não anula a nossa personalidade.

Pois assim como Pai é diferente do Filho e o Filho do Pai e, ambos, de per si são diferentes do Espírito Santo e, apesar das diferenças são um único e verdadeiro Deus. A comunidade que nasce da Trindade faz-se pela junção dos diferentes, unidos uns aos outros pelo amor.

A Igreja é uma pela afirmação das diferenças, e não por querer superá-las. A Igreja é uma justamente por juntar em si os dessemelhantes, e não meramente os iguais. Assim, não pode existir Igreja sem amor, única forma capaz de juntas os desiguais, unir os dessemelhantes e criar unidade na diferença e na diversidade.

A unidade dos crentes entre si também não os fez idênticos, como se fossem cópias uniformes. Antes a comunhão fraternal se dá na alteridade, em meio a diferença. O Corpo de Cristo se faz a partir de membros diferentes, sem que isso implique em comprometimento da unidade. Na verdade é a diferença o elemento condicionador da unidade cristã, orgânica e instrumental, e não unifórmica.

A unidade cristã santifica confirma a diferença, condição fundamental para que estejamos unidos; ministérios, dons, funções, cargos, ofícios diferentes se agrupam e se ajuntam formando um todo harmônico e coeso, como numa orquestra sinfônica (onde o som simultâneo e diferente dos vários instrumentos formam a beleza da sinfonia). A unidade do Espírito está no amor de pessoas que são diferentes, harmonizadas nas dessemelhanças pelo diapasão do amor. Comunhão nada tem de confusão, mas participação de um no ser do outro.

Toda unidade da Igreja se fundamenta na unidade do Deus Tri-Uno que servimos. A unicidade de Cristo é o fundamento da Igreja e dos crentes que a formam, é a confissão do Senhorio de Jesus sobre a Igreja que em obediência a Ele, abre mão das diferenças para a vida de comunhão em Cristo Jesus.
Ven.Arc.Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes+