
Para S. Beckett estamos condenados a falar ininterruptamente um discurso sem sentido, para fugir da inutilidade e da angústia, preenchendo o vazio da vida com ruídos. Como a mulher que tem muitos pássaros engaiolados em casa, a cantar ao mesmo tempo, não lhe permitindo nada ouvir em “
Cem Anos de Solidão” de G. G. Marques. Por isso, os três desafortunados personagens de “
Entre Quatro Paredes”, de J. P. Sartre, falam o tempo todo e não se entendem: estão destinados a falar e o destino deles é o inferno. O inferno é um indiscriminado e ruidoso encontro de sons sem sentido.
O que existe entre o som e o ouvir? O pensamento e a fala?... O silêncio! Mas a ele reservamos um curto momento que não nos permite ouvi-lo. Se o ouvíssemos e lhe déssemos tempo? O que ouviríamos? Não se está falando aqui da palavra caçada, da mordaça, do silêncio imposto. Isso seria a mutilação da palavra. Cortar a língua. Mudez. Censura. Violência conta a palavra. Fazer silêncio é diferente de ser silenciado.
O silêncio fala. É altissonante: Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das Suas mãos. Não há palavra, nem som algum, entretanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz (Sl. 19). Não foi isso que fizeram os amigos de Jó, ao verem a sua dor? Não é desta forma começa a liturgia celeste: houve silêncio no céu (Ap. 8).
Chegamos ao santuário e desejamos falar das dores, aflições, necessidades. Mas: O Senhor está no Seu santo templo: cale-se diante d’Ele toda a terra (Hc. 2.20). Fazer silêncio é oportunidade de sermos nós mesmos, reunindo os fragmentos do nosso ser diante do Altíssimo. Neste caso falar é calar e, de modo igual, calar é falar. Como o caipira de Pirapora no santuário: Como não sei rezar, só queria mostrar o meu olhar.
Calamos diante do Inefável, do Inaudito, do Impronunciável. Não no silêncio vazio, mas no esvaziar-se silenciosamente, pois Aquele que nem sequer podemos pronunciar o Nome assume a palavra. Este respeitoso silêncio remete-nos à paz, como diz Stº. Agostinho: Tu nos criaste para Ti e o nosso coração não descansa em paz senão silencia em Ti.
A Quaresma é um convite a fazer silêncio, a calar-se. É a busca de fazer como a Virgem Maria que guardava no silêncio do coração todas aquelas palavras (Lc 2.19). Como o carpinteiro José, marido de Maria, de quem não se tem uma só palavra dita nos Santos Evangelhos, mas de quem se tem o exemplo de firmeza, respeito e de quem aceita a Palavra Divina, mesmo que a mesma pareça absurda (Mt 1.19s).
A Quaresma é um convite a guardar silêncio, a calar-se. Não como Zacarias que, por descrer, saiu mudo do Templo (Lc 2.20). Pois a mudez é a palavra mutilada, caçada, que a incredulidade cortou. O silêncio que a Quaresma convida é o silêncio que faz a criança desmamada nos braçaos de sua mães (Sl 131.2). O silêncio de quem, satisfeito em sua necessidade, nada mais quer, por nada mais se agita, por nada mais se toma.
A Quaresma é um convite a guardar silêncio, a calar-se. Pois Aquele que assume a Palavra, quer nos falar: do caminho da cruz que assumiu por nós, da tentação que venceu por nós, da Sua vida que será dada para alimentar a nossa, da Sua morte que nos trás vida, da Sua fidelidade que vence a nossa infidelidade. Ele que nos falar que sabendo ser chegada a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13.1).
A Quaresma é um convite a gaurdar silêncio, a calar-se, mas como não é mudez, é espaço de ser ouvido e acolhido, mesmo sendo pecadores, pela Graça e o Amor que estão em Deus, no rosto humano e bendito do Seu Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Roguemos a graça de guardar fielmente a Quaresma: Deus Todo-poderoso e Eterno, que nada odeias do que criaste, e perdoas os pecados dos arrependidos; cria em nós corações novos e contritos, para que, lamentando os nossos pecados e reconhecendo a nossa corrupção, obtenhamos de Ti, Deus misericordioso, perdão e perfeita remissão. Por Jesus Cristo nosso Senhor. Amém! (LOC-b).
Ven.Arc.Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes +