“Há homens que lutam um dia. E são bons.
Há homens que lutam muitos dias. E são melhores.
Há os que lutam anos. E são excelentes.
Mas há os que lutam toda a vida. E estes são os imprescindíveis.”
Bertold Brecht
Para você que não me conhece, caro leitor, eu carrego algumas inquietações referentes a fé cristã e a política. Devido ao alto conteúdo ético da mensagem do Reino de Deus, exposto nas páginas da Bíblia e por todos os contornos que a história do cristianismo nos ensina, continuamente me deparo a questionar a respeito do político cristão, ou melhor, do cristão que heroicamente se aventura na política. E quando falo política quero dizer aquela partidária, republicana, aquela que enche de melindres a qualquer um, especialmente ao público evangélico brasileiro.
Desgraçadamente, este público evangélico assimilou em suas origens a concepção de que cristianismo e politica não se encontram. A idéia principal é uma estranha dicotomia, duvidosa sobre todos os aspectos, do secular e do sagrado, um maniqueísmo místico do “nós cuidamos de nossa eternidade e não das coisas deste mundo”. Existem estudos teológicos e sociológicos contemporâneos que versam sobre esta questão, mas deixo para outra ocasião uma explanação mais ampla.
Ocorre que durante a história do cristianismo e especialmente do protestantismo, existiram figuras distintas que, ao invés de seguirem a maré vigente, de se tornarem clérigos ou ministros de igreja, ousaram oferecer suas vidas à causa do Reino de Deus, servindo-O enquanto serviam a todos por meio do cuidado dos assuntos da polis. Bravos homens como Johannes Althusius, William Wilberforce, Abraham Kuyper, Guilhaume Von Pristerer, John Adams, John Witterspoon, entre outros, que se dedicaram ao ofício político, sejam como teóricos ou pragmatas, entendendo que sua vocação era tão sagrada quanto a do ministro que se ergue dominicalmente no púlpito eclesiástico.
Olhando para o quadro brasileiro, não encontro nem um rastro de homens cristãos, evangélicos e protestantes, que se identifiquem como tais e se aventurem corajosamente na empreitada da política. Pessoas que se preparem para gerir aquilo que é público, que faz parte do mandato cultural para a humanidade, dos recursos da natureza, da consolidação de uma sociedade harmoniosa e justa. Conheço muita gente que sonha em ser advogado, médico ou empresário, mas jamais ouvi de alguém, “me preparo para servir ao povo do meu país como parlamentar ou como governador do meu estado”.
Ora, a que se deve este comportamento omisso? A que ponto chegamos - e falo como membro do grupo já citado - em que nos permitimos imiscuir-nos dos negócios públicos, deixando de ser a luz que brilha para iluminar as trevas de um mundo onde campeia a maldade, deixando de ser o sal que transforma não só o mais íntimo da alma, mas também a estrutura injusta e desarmoniosa da sociedade. Não. Não é da nossa pecha e do nosso mandato como cristãos deixarmos a vida comum, especialmente no contexto brasileiro, onde temos uma democracia deficiente e uma república federativa mal-elaborada.
Lembremos, como o semeador que um dia saiu a semear: o cristão deve encorajar-se a fazer uma nova política, seja utilizando as ferramentas da direita ou da esquerda, mas sempre com princípios do Reino de Deus, expressos claramente na Bíblia, na tradição e em uma mente sadia. Sim, o cristão deve sair para politizar!
Para a Glória de Deus.
+Gustavo Abadie
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